O estranho sonho, que afinal, revelou a triste realidade daquela noite.
Já tive alguns sonhos extraordinários, como por exemplo, sonhar que fugia de um rato maior que eu. Numa história se desenvolvia em quadradinhos de banda desenhada (algo que adoro mas que nunca consegui desenvolver em papel, embora adore desenhar e seja arquitecta, acho incrível que o tenha conseguido imaginar). Outro maravilhoso, sem dúvida o melhor que já tive, em que eu e outro ser (não sei quem) éramos apenas fascinante energia multicolor em forma de um ser, em sereno e constante movimento e que desloca como que magnetizados um pelo outro e quando as energias de cada um, não sendo sólidas, se misturaram resultou daí uma sensação de fusão bastante prazerosa, algo que só consigo comparar a um orgasmo em simultâneo bastante intenso e continuo.
Vou tentar descrever aqui o mais insólito de todos os meus sonhos e que ainda me faz questionar como é que é possível tal acontecer. Inicialmente até pensar que podia ter sido tudo uma coincidência, mas dizem que não existem coincidência, certo? Por isso, ainda que não tenha contado a ninguém e tenha arrumado isto na minha cabeça, irei contar aqui e também explicar como o interpretei. Cada vez mais acredito que realmente estamos todos conectados e recebemos informação da fonte quando menos esperamos. Acredito profundamente que estamos aqui no planeta, para sentir emoções e que são emoções que nos fazem evoluir espiritualmente e consequentemente melhorar um pouco a humanidade. Acredito em Deus e em anjos, mas falo directamente com eles, sem intermediários. Embora goste de visitar igrejas, faço-o quando não está a decorrer nenhuma missa, quanto mais vazias mais gosto do espaço, talvez e apenas porque sou arquitecta ou porque as procuro apenas para ter um espaço sereno de reflexão.
O sonho em questão aconteceu em Abril deste ano. Numa noite de segunda para terça-feira, eu sonhei que, em pleno dia, quando estava na rua a chegar à casa dos meus pais, estava uma gaivota meio esmagada na estrada. Parecia que tinha caído com muita força no chão (coisa que nunca vi na vida real). Contudo ela era meio real, meio de borracha, não havia sangue e aparentava tons de cor-de-rosa, tipo gaivota fofinha quase brinquedo de criança. O que me fez olhar curiosa e sem qualquer repulsa. No sonho, eu não entendi, o que realmente tinha acontecido, mas sabia que havia caído do céu com muita força e tinha vida porque, uma das suas asas ainda mexia, tipo em último esforço. O que por segundos fez-me pensar se, num acto de misericórdia eu poderia por fim ao sofrimento do bicho (algo que nunca fiz, mas que estranhamente no sonho me passou pela cabeça) não o fiz. No sonho, a rua em questão, que durante o dia tem um movimento constante de pessoas e viaturas, estava vazia e apenas eu ia a passar. Entretanto eu fui a casa dos meus pais e logo voltei pelo mesmo percurso, sendo que a gaivota ainda permanecia no mesmo sítio. A rua continuava vazia mas a asa já quase não mexia, voltou-me a ocorrer o acto de misericórdia mas novamente, não tive coragem e segui. Eu descrevo o pormenor da asa, porque era das partes do corpo do bicho que não estava desfigurado e que me permite perceber que se tratava de uma gaivota. Acho-as muito bonitas e conheço-as bem porque, vejo-as muito cidade onde vivo, junto ao mar.
Quando acordei lembrei-me imediatamente do sonho, o que nem sempre acontece, por vezes só me lembro durante o decorrer da manhã que os segue. Pensei naquilo uns minutos e de como era bastante estranho o facto da gaivota do sonho ser meio real, meio brinquedo de borracha, sem sangue embora viva e sofrido uma forte queda. Não vi qualquer sentido naquilo e não dei mais atenção ao mesmo. Pensei simplesmente era mais um dos meus doidos sonhos.
Passaram-se 2 dias e na quinta-feira seguinte, o meu atual companheiro (que por acaso conheceu o meu ex e sabia que havíamos namorado no liceu), ao chegar a casa, disse-me: Olha já sabes do Tiago X? ao que respondi: não sei de nada, o que foi? Suicidou-se esta terça-feira - respondeu-me. A minha surpresa foi total, mas a estranheza da situação levou-me a perguntar-lhe como e porquê. Ao que ele respondeu: foi na madrugada de segunda para terça-feira, atirou-se do prédio onde vivia com a mãe, porque segundo uns amigos em comum, disse, sofria de depressão há algum tempo. Congelei… imediatamente entendi tudo. Essa tinha sido a noite do sonho e ele infelizmente era uma gaivota “fofinha” que havia caído do céu.
Agora falta-me explicar-vos o porquê de eu saber que ele era a gaivota e o porquê do sítio ser na rua dos meus pais.
Nós conhecemo-nos quando tínhamos cerca de 16 anos, na noite em que eu fui pela primeira vez a uma discoteca que existia na altura e que se chamava Gaivota (Seagull). Pois é.
Foi a festa de aniversário de uma amiga e os pais foram levar-nos e buscar-nos. O Tiago nessa noite, quando eu estava a sair, depois de olhar insistentemente para mim enquanto dançava na pista com as minhas amigas, apresentou-se e perguntou-me em que escola eu andava. Disse-lhe o meu nome e que andava no Liceu (uma das escolas secundárias desta cidade). Ainda me lembro de como ele ficou um pouco admirado, mas eu não liguei, sinceramente até estava a achá-lo um pouco chato, pelo saí da discoteca sem mais conversa. O que eu não lhe disse é que era uma 1ª vez que ia ter aulas no Liceu, tinha mudado de escola devido ao curso de artes que queria seguir. As aulas iam começar na segunda-feira seguinte, ele apresentou-se a mim na noite do sábado anterior.
No primeiro dia de aulas, na primeira aula às 8h, já todos sentados, quando alguém bate à porta e entra. Para minha grande surpresa era o Tiago. Eu não queria acreditar e até pensar para mim mesma “Ui… não posso acreditar… o chato da discoteca é da minha turma”.
Passaram poucas semanas até que eu não resisti ao seu charme e me apaixonei completamente por ele. Namorámos alguns meses durante esse ano com algumas interrupções, pois ele não era do tipo fiel. Entretanto no final do ano lectivo, depois de discutir com o pai, com quem ele vivia aqui na terra, foi para Lisboa para a casa da mãe. No principio do seguinte ano lectivo, soube que se tinha mudado novamente, agora para o Brasil com pai. Chorei por ele estar tão longe e percebi o quanto eu ainda gostava dele, mas a vida seguiu. A nossa história no entanto ao contrario do que eu pensava ainda não tinha acabado. Passados alguns meses, na noite do meu baile de finalista, já com 17 anos mas ainda com o coração partido por ele, fez-me uma surpresa de aparecer no meu baile de finalistas e acabámos a noite aos beijos, foi um querido e acompanhou-me à casa dos meus pais onde eu vivia, onde trocámos os nossos últimos beijos. Foi uma noite maravilhosa e eu estava muito, mesmo muito feliz. Seguiu-se a minha viagem de finalista, a qual ele não foi porque já não estudava na mesma escola. Ao voltar, infelizmente recebi a notícia, por uma amiga chegada, de que o Tiago tinha estado com outra pessoa nessa semana e ela tinha-os visto aos beijos. Quando o vi, discuti com ele, precisamente à porta da casa dos meus pais, onde lhe disse entre outras coisas: chega, acabou e não volto mais a estar contigo. Foi essa a última vez que o vi.
Acredito ter existido amor verdadeiro e puro entre nós, talvez por isso, ele tenha querido despedir-se de mim, mostrando-me de uma maneira suave, a maneira brutal que escolheu para o seu fim. A gaivota, porque foi onde nos conhecemos e a rua dos meus pais porque foi onde nos vimos a última vez. Acredito também que eventualmente outras pessoas devam ter sonhado com ele também nessa noite e que se apresentou noutra forma a eles, por serem outras histórias.
Estou com 44 anos e tenho 2 filhos, que são a melhor coisa da minha vida, do meu atual parceiro. Não contava voltar a chorar pelo Tiago mais de 20 anos depois. Na verdade ele era apenas um ex namorado, certamente o meu 1º grande amor, mas sinceramente a maneira como decidiu acabar com sua vida mexeu comigo e nos dias que seguiram eu chorava ao lembrar-me dele. Andei triste e a confusão na minha cabeça durou dias. Seria possível o sonho ser apenas uma grande coincidência ou seria algo mais, mas o quê ?. Penso que só alguém num profundo estado de tristeza, decide por fim à vida e embora não tenha sentimento de culpa em relação à sua decisão, decidi que usaria a meditação para me despedir dele.Então em meditação, imaginei-me a fazer-lhe uma festa enquanto ele dormia um sono tranquilo, pedi-lhe desculpa pelas minhas últimas palavras para com ele e disse-lhe ainda que gostei muito, mesmo muito dele. Algo que não me lembro de ter dito enquanto namorámos, mas que não quis que tivesse dúvidas. Após te-lo feito senti-me muito melhor, não chorei mais e fiquei com a sensação de que tinha conseguido carinhosamente dizer-lhe Adeus. Pelo menos nesta vida, a nossa história recebeu um ponto final.
Agora, mais uma coincidência, quem é o meu parceiro há mais de 15 anos e pai dos meus 2 filhos? É o meu par da Valsa que dancei no tal baile de finalista, sendo que na altura ele era apenas um bom amigo da minha turma, porque havia ocupado a vaga que o Tiago tinha deixado ao mudar-se da escola.
O que me leva hoje, a pensar no tal livre arbítrio que temos sobre o plano traçado antes de virmos. Questiono-me agora, se hoje estaria com o meu atual parceiro, caso o Tiago não tivesse optado por mudar de escola ou até se, todo este enredo próprio de novela, já teria sido assim decido por nós os 3 antes de descermos para estas vidas . Na verdade, embora me tenha apaixonado pelo meu actual parceiro e o ame, devido a consequências da vida de cada um, a relação está infelizmente bastante desequilibrada e por um fio.
A vida real é tão doida ou mais que um filme, e como referi anteriormente, se realmente somos nós que elaboramos o esboço da mesma, dou por mim a pensar sobre o que mais poderei eu ter planeado e o que ainda estaremos por vir. Seja o que for, sei que existirão emoções fortes, com dias bons e dias maus, grandes felicidades e grandes tristezas. Acredito hoje que com amor, calma e compaixão tudo se resolve e no fim tudo acabará bem, ainda que muitas situações só venhamos a entendido quando deixarmos o nosso corpo e voltarmos à nossa essência que acredito ser espiritual. Não tenho medo da morte, porque acredito que continuamos para além dela, receio apenas que seja precoce e/ou dolorosa.